por Gerson Siccahttp://limponolance.blogspot.comHoje levanto, ligo o computador para ler a Zero Hora e vejo que neste 12 de fevereiro de 2008 o gre-nal do século completa 20 anos, assim chamado porque era o inédito encontro dos rivais em uma semifinal de campeonato brasileiro. Imediamente veio a minha cabeça um monte de lembranças e uma constatação espantosa: bah, mas eu tenho na minha memória registros nítidos de um jogo realizado 20 anos atrás?!?!?!?!
A lembrança não é só a prova de que o cara pula dos vinte e poucos anos para os trinta e algo muito mais rápido do que se imagina. É que aquele jogo foi para marcar a vida de qualquer colorado. Coisa de louco, nunca vista em grenais, e que não se sabe se um dia se repetirá, para qualquer um dos lados.
E olhando os
lances daquele jogo voltei 20 anos na minha cabeça. E lá estava eu na praia do Cassino, na colônia de férias da Brigada Militar. Meu pai, sargento da briosa, havia sido sorteado para a primeira quinzena de fevereiro. A ocupação das casas de madeira usadas para o veraneio seguia um sorteio. E nem todo mundo tinha sorte de pegar janeiro, sempre considerado o melhor mês.
Mas a colônia estava cheia de pessoas nos chalés e nas barracas. Aliás, eu, então com 14 anos, até preferia a barraca. A colônia era um lugar legal, alegre, com jogo de bocha dos mais velhos, muita cerveja, churrasco, uma alegre convivência. E aquele lugar era o mundo encantado para crianças e adolescentes. Muitos amigos e amigas, praia, sol, vôlei, futebol, música, festa e tudo o mais que se tinha direito.
E no dia no gre-nal o movimento era maior ainda. Todos, homens, mulheres, crianças e adolescentes estavam alvoroçados. Afinal, quem não era colorado era gremista. No final da tarde uns iriam comemorar e outros chorar.
Vi o jogo na casa em que estávamos. Sala lotada, muita gente foi pra lá. O sinal da TV ali estava melhor. Gente sentada, em pé, escorada na porta, do jeito que dava.Naquela parte da colônia a maioria era gremista.
Meu pai gremista não cansava de falar que a bola que o Nilson meteu no poste no primeiro jogo no Olímpico iria fazer falta. E por algum tempo pareceu que ele estava certo.
Gol deles. Festa do adversário. Pouco tempo depois, o lateral Casemiro é expulso. Perdendo e com um a menos. Desgraça total. Termina o primeiro tempo. Os gremistas cantam, gritam e riem. Acreditavam estar liquidada a fatura. Mal sabiam que o futebol pode trazer alegrias ou desgraças em poucos minutos.
No segundo tempo vem a campo o uruguaio Diego Aguirre, que mudou o jogo, segurando mais a defesa deles. Nilson empata. Festa. E faz o segundo, selando uma vitória inacreditável. A colônia veio abaixo. Um dos veranistas atravessou o gramado do terreno de joelhos. Todos foram para a avenida principal do balneário. Os colorados comemoravam como se fosse o título mundial. 1989 começava vermelho.
1989 foi um ano marcante pra mim. Foi a maior mudança que eu tive na minha vida. Duvido que venha a ter outra igual. Naquele 12 de fevereiro eu aproveitava meus últimos dias de praia antes de enfrentar o desafio de sair da minúscula Pedro Osório para ir morar no Partenon, em Porto Alegre, e isso sem os meus pais.
Dias depois do gre-nal do século mudei-me para Porto Alegre, cidade que eu mal conhecida.Aprendi a pegar a linha Partenon para ir até o hoje extinto terminal do bairro, e dali pegar a linha São Caetano e descer perto de casa. Fui morar perto do presídio central e do meu colégio, que ficava(e fica) na Aparício Borges. Do Partenon aprendi a andar na cidade, a ir a outros bairros onde moravam meus amigos, bairros esses que geralmente eu considerava bem mais agradáveis que o meu. Teresópolis, Nonoai, Ipanema, Jardim Botânico, Lindóia, Cidade Baixa, a lista era grande. Bento Gonçalves, Oscar Pereira, Ipiranga, Cristiano Fischer, Carlos Gomes, Protásio, Pedro II, Sertório, Assis Brasil: fui conhecendo várias vias da gigante cidade, que aos poucos foi se tornando agradável e nem tão grande assim.
Em 1989 a novela Tieta fazia sucesso no horário das 20h. Minha TV era preto e branca e de 5 polegadas. Rolava uns filmes legais na sessão das dez do SBT. Chiclete com banana era uma festa do Colégio Militar que fazia sucesso. Ir em festas de 15 anos nos vários clubes da cidade era um baita programa. Arrumei amigos para o futebol, para caminhadas até o Carrefour da Bento(isso só pra ir mesmo, por falta do que fazer à noite durante a semana) e para festas. E amigos colorados para ir ao Beira-Rio.
Em 1989, a partir de março, eu estava em Porto Alegre e descobri que a linha T2 da Carris me deixava na "bocada" do Beira-Rio. Uma barbada. Pena que em 89 não conseguimos levantar a taça do Brasileiro de 88(olha só como era a coisa, o brasileiro do ano anterior terminando no ano seguinte!), e tivemos que adiar o sonho da Libertadores, após um jogo em que me recusei a ir, mesmo com a insistência da gurizada. Foi a única vez em que tive um forte pressentimento de desgraça.Nunca mais isso aconteceu. Fiquei em casa, procurando esquecer o que acontecia no estádio. Só liguei o rádio com os foguetes, mas eram dos secadores.
De 1989 pra cá fiquei 20 anos mais velho, sofri muito com o Inter, e bota sofri nisso, infelizmente saí de Porto Alegre, cidade que pra mim tem uma magia inexplicável(talvez porque lá tive a grande mudança de rumo da minha vida), fiz faculdade, andei pelo Brasil, tomei muitos banhos de mar, trabalhei bastante, casei, joguei muito futebol, perdi entes queridos, fiquei feliz, triste, e vivi momentos fantásticos como ver meu Inter campeão da América, do Mundo, da Recopa e da Sul-Americana.
Hoje, 20 anos depois do jogo que desde a adolescência marcou meu coração colorado vejo, no entanto, que nem tudo passa com o tempo. Como na década de 80 vou feliz da vida para o Cassino no verão, embora não mais na colônia. Meu Inter desperta a mesma paixão que despertava naquela época. Porto Alegre ainda é a cidade dos sonhos. E mesmo depois de 20 anos sinto o mesmo encantamento indescritível ao chegar no Gigante da Beira-Rio. Não importa que antes eu chegava espremido no T2 lotado, com a massa pulando a catraca e batendo no teto do ônibus, e agora chego com o ar condicionado do carro ligado, estacionando no parque gigante após pegar algum trânsito. O Beira-Rio está lá, com a mesma capacidade de fazer meus olhos brilharem, sem coréia, mas com a memória de grandes feitos, e com o som vindo da nação colorada naquele 12 de fevereiro de 1989 entranhado em seus corredores. O Beira-Rio de um gre-nal que valeu por muitos títulos. Um gre-nal que será lembrado enquanto houver colorados e gremistas neste mundo.