sexta-feira, novembro 06, 2009

PONTOS E CONTRA-PONTOS PARA O MACACO

POR: Amauri Knevitz Jr. * amauri.knevitz@zerohora.com.br

Fonte: ClicRBS

Adoção do macaco como símbolo de ação social do Inter gera polêmica

Alguns torcedores reclamam da origem racista do apelido

Uma ação aparentemente inofensiva do marketing do Inter está gerando reações controversas. A adoção de um macaco como mascote do Inter Social, iniciativa realizada pelo clube com crianças carentes, é vista por muitos colorados como um ato inadmissível. Para outros, é uma inovação bem-vinda.

A princípio, muitos torcedores se revoltaram com a possibilidade de que o clube estivesse começando a adotar um novo símbolo oficial, em substituição ao saci, tradicional representante do Inter. A possibilidade foi negada enfaticamente pelo diretor de marketing Jorge Avancini. Ele garante que o macaco foi escolhido pelas próprias crianças beneficiadas pelo projeto a partir de uma enquete e ficará restrito a esta ação. O dirigente considera que o animal é uma figura mais próxima ao dia a dia das crianças, e até divulgou uma nota sobre o assunto. O clube publicou em seu site uma charge em que o saci aparece ao lado do macaco, promovendo a enquete lançada para escolher o nome do novo personagem, símbolo do Inter Social.

Mesmo assim, muitos torcedores não se dão por satisfeitos. Para eles, adotar o macaco em qualquer iniciativa oficial do clube significa a legitimação do racismo que, segundo eles, originou o apelido. O animal começou a ser usado pela torcida gremista para se referir aos colorados como um xingamento. Orgulhosos de sua origem popular, os colorados adotaram o apelido de forma informal. No Gre-Nal dos 5 a 2, vencido pelo Inter no Olímpico em 1997, a torcida visitante gritou ironicamente: "Ah! Eu sou macaco!".

Torcedores famosos e especialista não veem problemas

A ala dos "defensores do macaco" tem representantes de peso. A Camisa 12, mais antiga torcida organizada do Inter, com 40 anos de fundação, tem até um macaco no símbolo, como se vê no site da torcida. O presidente da Camisa 12, Gilberto Camargo da Silva, gosta da ideia:

— Na minha opinião, o clube demorou a fazer isso. O macaco é nosso símbolo e para nós está tranquilo. Usamos ele há uns 10 anos.

Rafael Malenotti, vocalista da banda Acústicos e Valvulados e colorado fanático, aproveita para dar uma alfinetada nos rivais:

— Tem muita gente que aproveita essa situação para dar uma conotação racista. Mas pelo fato de eles serem a "Alma Castelhana", isso se entende, já que os argentinos chamam os brasileiros de "macaquitos". Por mim, não vejo problema. Assim como existem outros animais vinculados à imagem deles, não tem problema nenhum assumir que a coloradagem é a macacada.

Outro torcedor ilustre, o escritor Luiz Augusto Fischer, vai mais fundo na questão:

— Acho legal por um motivo histórico. É muito comum um grupo oprimido assumir as pechas que são jogadas contra si como fator de orgulho. O melhor exemplo disso no Ocidente é a cruz, que representa o local onde o maior líder dos cristãos foi morto, mas se tornou símbolo de vitória. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Estrela de Davi era um símbolo terrível, porque designava as pessoas perseguidas, mas depois foi restaurado e passou a representar o orgulho de uma nação.

Estudioso da teoria dos símbolos, o professor de Comunicação da PUCRS Jacques Wainberg não vê problemas, dependendo da forma como o personagem será construído.

— No passado, este termo era pejorativo, usado para designar de forma hostil o negro, o pobre. Hoje, não tenho certeza se as pessoas fazem esta relação entre o macaco e o marginal social. Uma criança, por exemplo, vai ter uma enorme simpatia pelo animal. Tudo depende de como se manipula o símbolo. A princípio, não vejo nada de errado. Poderá pegar bem se o macaco for pequeno, simpático, bem-humorado, brincalhão — opina.

Internautas ficam na bronca

O depoimento de Wainberg coincide com a ideia de Avancini, segundo qual o macaco do Inter Social ganhará a companhia de outros personagens e terá familiares e amigos. Tudo para aproximar o conceito das crianças, que são o público-alvo do projeto, mas também pode servir para aliviar o descontentamento da parte da torcida que está na bronca.

Quando o blog Clube da Bolinha, do clicEsportes, divulgou a enquete para escolher o nome do mascote, o campo de comentários sediou uma discussão ferrenha, assim como acontece nas comunidades coloradas do Orkut e em outros fóruns de torcedores pela internet. O Alexandre, de Porto Alegre, por exemplo, questionou: "Com isso agora a torcida do Grêmio poderá cantar 'olha a festa macaco' sem ser chamada de racista?".

Um internauta de Santa Maria disse: "Que mau gosto desse 'artista'. Será que ele não sabe a origem racial da pecha de macacos que os gremistas racistas colocaram nos colorados? O símbolo do Inter não é um macaco, é um saci. Eu não me aceito como macaco como querem os gremistas e muito me admiro a direção assumir essa condição". Ele não quis se identificar, e escreveu no lugar do nome apenas a mensagem "Fora com este personagem".

Por outro lado, a Débora Monteiro, de Viamão, pondera: "E desde quando um macaco representa racismo no Brasil, gente? Poxa, abram a cabeça, o macaco é um dos maiores animais na fauna brasileira, gente, acho que o preconceito está no comentário querendo um mascote de olhos azuis e loiro, isso sim é preconceito, porque não deixar um macaco como mascote?". O Carlos, de Porto Alegre, concorda: "Ótima idéia a de por um macaquinho como mascote, assim acaba de vez com essa palhaçada de 'discriminação'. Não há tom pejorativo em chamar torcedor de 'macaco', já que ele é um dos símbolos do Inter faz tempo, e só há maldade na cabeça de alguns! Há torcedores colorados que se vestem de macaco, então eles são preconceituosos com si próprios? Tenho certeza que não."

O macaco mais feliz

O macaco em questão é famoso no Beira-Rio. Sérgio Antônio da Silva Vanacor, 42 anos, encarna o personagem há cerca de 20, segundo ele. Natural de Porto Xavier, guardador de carros na rodoviária de Porto Alegre desde os 12 anos, Sérgio se orgulha da fantasia e do sucesso que faz com as crianças. Nunca vai ao Beira-Rio sem estar fantasiado dos pés à cabeça, mesmo que o calor em alguns jogos seja insuportável.

Obviamente, Sérgio é favorável à adoção do macaco. Segundo ele, o bicho deveria ser até o mascote do clube, mantendo o saci como símbolo.

— Não tem nada a ver. Senão eu não faria o macaco há 20 anos! Tem que ter orgulho. Macaco campeão do mundo não é para qualquer um. Vamos parar com esse negócio de racismo — pede.

De tanto comparecer aos jogos fantasiado de macaco dos pés à cabeça, ele acabou ganhando de presente do clube a condição de associado. Mas reclama de ter que pagar as mensalidades do próprio bolso. Conta que é chamado para fazer viagens ao Interior, visitando consulados do Inter. E garante:

— Sou o macaco mais feliz que existe.

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