Para haver punição a vítima tem que ser medalhão
por Gerson Sicca
http://limponolance.blogspot.com
Há muitas mentiras sobre o Brasil. Afinal, só um universo de mentiras pode manter uma sociedade tão desigual.
Uma mentira muito difundida é a de que o povo brasileiro é bom e solidário.
Uma ficção. Os brasileiros são humanos, com qualidades e defeitos, parecidos e diferentes entre si, como todos os povos, e criados em uma sociedade que aceita a crueldade alheia com imensa naturalidade.
É certo que relações de solidariedade são fortes no âmbito familiar e em grupos mais próximos(vizinhos, turma do futebol, etc), além das situações extremas de intenso sofrimento, como nas catástrofes. No entanto, no geral, quando se trata de avaliar o significado do que ocorre no seio da sociedade, o brasileiro raramente consegue pensar para além da sua esfera privada. Aliás, isso é comum no homem médio.
Pessoas morrem de fome, corruptos deitam e rolam no Poder Público, violência para todos os lados, contra a mulher, pobres, negros, homossexuais, trabalhadores, sistema prisional grotesco, e a maioria do povo nem está para tudo isso. Escandaliza-se com um fato aqui e ali, mas logo volta para a sua novela. Reclama do político e segue votando em quem compra voto, e por aí vai.
E nessa terra de "se a farinha é pouca, meu pirão primeiro", o povo costuma gritar mais alto sempre quando o andar superior sente-se lesado. Aí todo mundo fala e até o oprimido quer defender o opressor, ainda que muitas vezes por falta de informação. Por outras vezes, defende mesmo por ter uma visão de que a estrutura desigual deve mesmo ser mantida.
Por que falo de tudo isso? Por causa de Carlos Simon.
Já vi erros grosseiros de Simon. Erros mesmo, o roubo clássico. Erros sem explicação. O maior deles na final da Copa do Brasil de 2002, entre Corinthians e Braziliense, quando ele não deu um pênalti claro para o time de Brasília e ignorou uma falta absurda no lance de um dos gols do time paulista, tudo isso na primeira partida da final. Mas nenhum de seus "apitaços" deu tanta repercussão quanto o lance de domingo, no jogo entre Flu e Palmeiras.
Até pode ser que Simon tenha errado. Mas vendo com atenção percebe-se que Obina joga o braço para trás para impedir a antecipação do zagueiro tricolor. Logo, perfeitamente poderia ser marcada a falta, ainda mais no Brasil, onde os árbitros marcam qualquer coisa.
Mas o Palmeiras berrou e a Comissão de Arbitragem correu para socorrer o alviverde. Afastou Simon.
Estranho que os erros crassos de Héber Roberto Lopes na primeira partida da final da Copa do Brasil deste ano não tenham obtido a mesma repercussão. Um pênalti claro em Alecsandro aos 7 do primeiro tempo, quando o placar de Corinthians e Inter estava 0 a 0, e o segundo gol dos paulistas feito depois do jogador cobrar a falta com a bola rolando, bem na frente do árbitro.
Agora todo mundo fala, o Presidente do Palmeiras, imprensa, jogadores e quem mais tiver cordas vocais. Repercussão nacional.
E fica assim. O brasileiro não se irrita com o roubo, com a violência, com a falta de caráter. Ele foi criado na desigualdade e treinado para reproduzi-la. O brasileiro irrita-se quando os efeitos negativos da bizarrice nacional atingem o piso superior. Ninguém se indigna pelo ato em si, mas por quem foi afetado.
E assim continuamos. Julgamos conforme a vítima e o réu, e não pelo significado dos atos. O que nos interessa é manter a desigualdade e evitar que os afortunados sofram com as consequências nefastas, decorrentes do país cruel que nossos ancestrais criaram e que mantemos todos os dias com nosso comportamento na rua, na política, no trabalho e nas relações afetivas.
O Brasil tem uma sociedade civil que não se funda na igualdade, na liberdade e na ética.É o salve-se quem puder. E seguimos defendendo a desigualdade.
Por isso, se o Palmeiras berrar todo mundo vai acudir. Agora, se o reclamante tiver menos prestígio, será apedrejado e ridicularizado, embora vergonhosamente roubado.
Em suma, a Comissão de Arbitragem é Brasil!





2 comentários:
Ótimo post.
Já tava achando que essa questão ia passar batida. Vale a pena conferir no site da ESPN a entrevista que o Simon deu ao PVC dizendo: "Agora vou me preparar pro Mundial de Clubes", dando um tapa de luva na direção palmeirense. Não vou retirar o direito dos paulistas reclamarem, mas acho que eles extrapolaram. Basta ainda lembrar que essa "inocente" diretoria do Palmeiras colocou gás no vestiário do São Paulo certa feita...
E tem muita coisa mal explicada: o procurador do STJD, Paulo Schmidt, parece que só procura confusão com o RS, pois em pleno Morumbi houve invasão de campo e nada acontece. E ninguém fala nada.
Às vezes me questiono porque gasto tanto tempo da minha vida com futebol, porque fatos como esses são extremamente desestimulantes.
E isso que esse é o esporte nacional, nosso orgulho, nossa paixão...
Ah esqueci de dizer: O Palmeiras tá cagado! Por isso esse alarde todo. O São Paulo tá chegando (melhor: chegou) e, por conta da rivalidade paulista, tão com medo que, mais uma vez, o caneco vá pro Morumbi. Enquanto isso vejo o São Paulo tranquilo, construindo um tabu que dificilmente será batido: 4 brasileiros consecutivos... Quem quer ser campeão não pode expor suas fraquezas e é justamente isso que os palmeirenses estão fazendo!
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