Vermelho para sempre
por Gerson Sicca
http://limponolance.blogspot.com
Vai entender o que passa na cabeça do ser humano.
No caso do meu irmão a escolha foi mais previsível. Lembro de uma foto dele com não mais que três anos de idade. Lá estava ele vestido com a camisa do time da Azenha. Mas aquilo era uma imposição, e não demorou muito para o Wagner querer ser igual ao irmão mais velho. Aí a preferência mudou e a paixão pelo colorado não demorou a chegar, mesmo com todo aquele marasmo que dominou os anos 90.
No meu caso a predileção pelo glorioso Internacional não é tão fácil de ser explicada, e talvez decorra de algum fator imponderável ou de alguma desconhecida reação do meu cérebro frente ao vermelho.
O velho Sicca é completamente fanático por outro time que se vangloria de peladas jogadas na segunda divisão. A dona Izolda também tem esse estranho gosto. O óbvio, sem dúvida, era que eu também fosse trilhar esse triste caminho. Não foi o que ocorreu.
Tinha eu poucos anos de vida e não posso dar meu testemunho sobre os fatos. Conto o que me foi dito. Um tio, que também sofre do mau que afeta meus pais, deu-me um uniforme azul bebê, presente que certamente fazia parte de uma campanha para a obtenção de mais adepto. A campanha falhou.
Meu padrinho chegou com um uniforme do colorado. Aquilo bastou. Larguei o azul, mesmo com o protesto quase que diário de meu pai. Não teve jeito. Virei colorado na hora. Nem sei se um dia fui gremista, e se fui é porque não estava no exercício do meu livre arbítrio.
O vermelho atingiu de forma certeira algo lá dentro da minha mente. Talvez tenha sido o gosto pela cor. Talvez alguma ligação mística. Houve algo extraordinário, sem dúvida. A preferência pelo colorado veio com tamanha intensidade que nem todas as forças do mundo conseguiriam demover-me da ideia de seguir o Internacional por toda a minha.
Fui crescendo e a opção infantil pelo Inter, surgida do instinto, transformou-se em amor incondicional. Assim como o momento em que decidi ser colorado, algo difícil de explicar. Afinal, por qual razão ficamos tomados por um sentimento tão intenso pelo nosso eterno rolo compressor?
Depois de muito pensar sobre isso passei a acreditar que o Internacional assumiu tamanha importância na minha vida pela sua capacidade de irromper nos corações colorados os sentimentos mais extremos e intensos que um ser humano pode ter.
Com o Inter fui ao limite do que eu poderia aguentar de emoção. Aos 10 anos vi o colorado vestir a camisa da seleção brasileira em 84 e fiquei triste na final contra a França nas Olimpíadas. Outras vezes fiquei em tal estado de desânimo e decepção que parecia ter acabado o mundo. A derrota do colorado sempre me atingiu com a força de um tiro de canhão.
Todas as tristezas foram superadas com perseverança. Há algo no Inter maior do que tudo. Ama-se o clube pela sua própria existência, e não pelos títulos que ele ganha. Por isso sempre mantive firme meu amor inconteste. Mas foram nas vitórias que conheci o ápice existencial, a extrema felicidade.
Perdi a respiração e meu corpo tremeu quando Fernandão empurrou a bola para as redes na final da Libertadores. Senti algo incontrolável, não havia como dominar o meu corpo. Enloqueci quando Nilson deu o testaço mortal para empatar o gre-nal do século em 89. Pulei como um maluco e tremi de emoção no momento em que Pinga jogou-se na área e o juiz marcou pênalti na final contra o Fluminense em 92. Brinquei como criança no gramado do Beira-Rio durante a invasão do campo após a conquista da Copa Governador do Estado. Nem sabia o que fazer quando Gabiru recebeu a bola de Iarley e tocou para o fundo das redes do Barcelona. Fiquei tão estupefato que custei a acreditar. Ao final do jogo, agradeci a Deu por aquele distante dia nos anos 70 em que ganhei a primeira camisa vermelha.
A paixão extrema e duradoura pelo colorado, uma das poucas coisas que tenho certeza me acompanhará até o último minuto aqui na terra, é fruto do que o clube é capaz de fazer com cada torcedor. O Inter nos proporciona o máximo das emoções, a explosão dos instintos,e a incrível passagem meteórica da depressão ao êxtase. O Inter escancara que somos humanos e que merecemos muito mais do que a enfadonha rotina diária. O Inter é a negação da mesmice. Eis porque o amamos. Ele nos convida a transgredir as regras da vida sem sal.
Só esse motivo seria suficiente para amar o Inter com todas as nossas forças. Mas há outro.
Passamos milênios discutindo a razão da nossa existência e sempre tivemos medo da morte. Não nos conformamos com o fato de que um dia partiremos, que nossa vida tem prazo de validade. E perguntamo-nos, então, qual a razão da nossa passagem por este planeta.
O Inter resolve esse problema.
Os dribles precisos de Tesourinha na ponta-direita do rolo compressor dos anos 40, a aceitação dos excluídos jogadores da Liga da Canela Preta naquele que seria o clube do povo, a cabeçada reluzente de Figueroa em 75, os 4 gols de Larry na inauguração de um certo estádio de Porto Alegre, a massa gritando nos Eucaliptos ou na coréia do Gigante da Beira-Rio. São alguns momentos que ajudaram a tornar o Inter eterno. Parece que ele sempre existiu. E certamente sempre existirá. O colorado com a devoção de sua torcida e os grandes feitos que realizou transcendeu o tempo e desafiou o relógio. Tornou-se atemporal, uma entidade que subverte nossos conceitos de vida e morte, início e fim.
Por ser eterno, trouxe-nos a luz. Se sou colorado, se apoio o meu time e o sigo em quaisquer circunstâncias ganho em troca o direito à eternidade. Não interessa se o corpo um dia não aguenta tanto amor. Isso é o de menos. Os colorados apaixonados estarão em espírito gritando nas arquibancadas do Gigante, de lá não sairão nunca mais. São parte da glória alvirrubra Descobrimos com o Inter que estando com em busca das conquistas com ele estaremos no panteão da vitória, e que torcer pelo colorado por si só já é motivo suficiente para encontrar sentido na vida. Viver é alegrar-se, entristecer-se, ganhar, perder, encantar-se, amar, ser feliz. Viver e sentir tudo por ser colorado.
Ser eterno. Meu tio Alceu, o maior colorado que já conheci, amigo que me levou no primeiro dia de aula na escola, continua exibindo orgulhosamente a sua tatuagem no braço. O símbolo mais lindo da terra. Exibe-a para milhares de amigos torcedores que do lance mais alto do Beira-Rio, aquele que só conheceremos no futuro, assistem e vibram com a entrada em campo do manto vermelho. Ele ri, satisfeito. Vê o jogo do melhor lugar. Descobriu que a vida não tem fim para um colorado. Sua voz está até hoje em meio ao som do canto da torcida apaixonada. E vive lá de cima com tanta robustez como nós a experiência de louvar o vermelho. Com a vantagem de não pagar ingresso.E ainda arrepia-se ao falar daquele jogo inesquecível do nosso Internacional. Alceu tornou-se eterno, um feliz prêmio por ter amado o colorado desde sempre.
Meu Inter, obrigado por me jogar no caldeirão dos sentimentos e me fazer experimentar o máximo de minha vivência. E obrigado por me fazer descobrir que a vida colorada é para sempre. 100 anos no calendário. Eterno e mágico para quem te ama.
No meu caso a predileção pelo glorioso Internacional não é tão fácil de ser explicada, e talvez decorra de algum fator imponderável ou de alguma desconhecida reação do meu cérebro frente ao vermelho.
O velho Sicca é completamente fanático por outro time que se vangloria de peladas jogadas na segunda divisão. A dona Izolda também tem esse estranho gosto. O óbvio, sem dúvida, era que eu também fosse trilhar esse triste caminho. Não foi o que ocorreu.
Tinha eu poucos anos de vida e não posso dar meu testemunho sobre os fatos. Conto o que me foi dito. Um tio, que também sofre do mau que afeta meus pais, deu-me um uniforme azul bebê, presente que certamente fazia parte de uma campanha para a obtenção de mais adepto. A campanha falhou.
Meu padrinho chegou com um uniforme do colorado. Aquilo bastou. Larguei o azul, mesmo com o protesto quase que diário de meu pai. Não teve jeito. Virei colorado na hora. Nem sei se um dia fui gremista, e se fui é porque não estava no exercício do meu livre arbítrio.
O vermelho atingiu de forma certeira algo lá dentro da minha mente. Talvez tenha sido o gosto pela cor. Talvez alguma ligação mística. Houve algo extraordinário, sem dúvida. A preferência pelo colorado veio com tamanha intensidade que nem todas as forças do mundo conseguiriam demover-me da ideia de seguir o Internacional por toda a minha.
Fui crescendo e a opção infantil pelo Inter, surgida do instinto, transformou-se em amor incondicional. Assim como o momento em que decidi ser colorado, algo difícil de explicar. Afinal, por qual razão ficamos tomados por um sentimento tão intenso pelo nosso eterno rolo compressor?
Depois de muito pensar sobre isso passei a acreditar que o Internacional assumiu tamanha importância na minha vida pela sua capacidade de irromper nos corações colorados os sentimentos mais extremos e intensos que um ser humano pode ter.
Com o Inter fui ao limite do que eu poderia aguentar de emoção. Aos 10 anos vi o colorado vestir a camisa da seleção brasileira em 84 e fiquei triste na final contra a França nas Olimpíadas. Outras vezes fiquei em tal estado de desânimo e decepção que parecia ter acabado o mundo. A derrota do colorado sempre me atingiu com a força de um tiro de canhão.
Todas as tristezas foram superadas com perseverança. Há algo no Inter maior do que tudo. Ama-se o clube pela sua própria existência, e não pelos títulos que ele ganha. Por isso sempre mantive firme meu amor inconteste. Mas foram nas vitórias que conheci o ápice existencial, a extrema felicidade.
Perdi a respiração e meu corpo tremeu quando Fernandão empurrou a bola para as redes na final da Libertadores. Senti algo incontrolável, não havia como dominar o meu corpo. Enloqueci quando Nilson deu o testaço mortal para empatar o gre-nal do século em 89. Pulei como um maluco e tremi de emoção no momento em que Pinga jogou-se na área e o juiz marcou pênalti na final contra o Fluminense em 92. Brinquei como criança no gramado do Beira-Rio durante a invasão do campo após a conquista da Copa Governador do Estado. Nem sabia o que fazer quando Gabiru recebeu a bola de Iarley e tocou para o fundo das redes do Barcelona. Fiquei tão estupefato que custei a acreditar. Ao final do jogo, agradeci a Deu por aquele distante dia nos anos 70 em que ganhei a primeira camisa vermelha.
A paixão extrema e duradoura pelo colorado, uma das poucas coisas que tenho certeza me acompanhará até o último minuto aqui na terra, é fruto do que o clube é capaz de fazer com cada torcedor. O Inter nos proporciona o máximo das emoções, a explosão dos instintos,e a incrível passagem meteórica da depressão ao êxtase. O Inter escancara que somos humanos e que merecemos muito mais do que a enfadonha rotina diária. O Inter é a negação da mesmice. Eis porque o amamos. Ele nos convida a transgredir as regras da vida sem sal.
Só esse motivo seria suficiente para amar o Inter com todas as nossas forças. Mas há outro.
Passamos milênios discutindo a razão da nossa existência e sempre tivemos medo da morte. Não nos conformamos com o fato de que um dia partiremos, que nossa vida tem prazo de validade. E perguntamo-nos, então, qual a razão da nossa passagem por este planeta.
O Inter resolve esse problema.
Os dribles precisos de Tesourinha na ponta-direita do rolo compressor dos anos 40, a aceitação dos excluídos jogadores da Liga da Canela Preta naquele que seria o clube do povo, a cabeçada reluzente de Figueroa em 75, os 4 gols de Larry na inauguração de um certo estádio de Porto Alegre, a massa gritando nos Eucaliptos ou na coréia do Gigante da Beira-Rio. São alguns momentos que ajudaram a tornar o Inter eterno. Parece que ele sempre existiu. E certamente sempre existirá. O colorado com a devoção de sua torcida e os grandes feitos que realizou transcendeu o tempo e desafiou o relógio. Tornou-se atemporal, uma entidade que subverte nossos conceitos de vida e morte, início e fim.
Por ser eterno, trouxe-nos a luz. Se sou colorado, se apoio o meu time e o sigo em quaisquer circunstâncias ganho em troca o direito à eternidade. Não interessa se o corpo um dia não aguenta tanto amor. Isso é o de menos. Os colorados apaixonados estarão em espírito gritando nas arquibancadas do Gigante, de lá não sairão nunca mais. São parte da glória alvirrubra Descobrimos com o Inter que estando com em busca das conquistas com ele estaremos no panteão da vitória, e que torcer pelo colorado por si só já é motivo suficiente para encontrar sentido na vida. Viver é alegrar-se, entristecer-se, ganhar, perder, encantar-se, amar, ser feliz. Viver e sentir tudo por ser colorado.
Ser eterno. Meu tio Alceu, o maior colorado que já conheci, amigo que me levou no primeiro dia de aula na escola, continua exibindo orgulhosamente a sua tatuagem no braço. O símbolo mais lindo da terra. Exibe-a para milhares de amigos torcedores que do lance mais alto do Beira-Rio, aquele que só conheceremos no futuro, assistem e vibram com a entrada em campo do manto vermelho. Ele ri, satisfeito. Vê o jogo do melhor lugar. Descobriu que a vida não tem fim para um colorado. Sua voz está até hoje em meio ao som do canto da torcida apaixonada. E vive lá de cima com tanta robustez como nós a experiência de louvar o vermelho. Com a vantagem de não pagar ingresso.E ainda arrepia-se ao falar daquele jogo inesquecível do nosso Internacional. Alceu tornou-se eterno, um feliz prêmio por ter amado o colorado desde sempre.
Meu Inter, obrigado por me jogar no caldeirão dos sentimentos e me fazer experimentar o máximo de minha vivência. E obrigado por me fazer descobrir que a vida colorada é para sempre. 100 anos no calendário. Eterno e mágico para quem te ama.



